Altivez
quinta-feira, 3 de dezembro de 2020![]() |
| Altivez, Eric Jhon (2020) |
Deitado nos braços delgados da lua eu observava tranquilo a dança graciosa de umas estrelas irmãs.
Sempre me encantou, como cantam as estrelas, e as siamesas dançam e giram pelos espaços vagos e sombrios do universo, àquela musicalidade suavissimamente nuclear.
Eu assisti o explodir de estrelas em supernovas e novas estrelas nascendo, aqui e ali, preenchendo o vazio escuro do universo com uma luz como luz de candeeiro, como luz de lampião suscetível ao desfecho das brisas mortais do destino.
Minhas estrelas, eram minhas.
Estrelas mortais de eterna compaixão minha.
Não havia outras tão belas como aquelas que me iluminavam, na via láctea.
E quando eu as observava, e as admirava, e as escutava como costumeiramente eu fazia, deitado nos braços delgados da lua, Hélix me olhou com um olhar profundo, certeiro, bradando, falando sem, contudo, nada dizer.
Eu deveria buscar uns buracos-negros em Andrômeda, os mesmos que devoraram algumas de minhas estrelas, para serem quebrados, átomo por átomo, desfeitos os agrupamentos subatômicos dos elétrons daquelas singularidades cósmicas em níveis mais e mais quânticos, para serem reagrupados em novas estrelas numa cosmogonia metafísica.
Eu deveria buscar uns buracos-negros em Andrômeda, mas fugi, fugi, fugi mais e mais, até que cheguei em Plutão. Ele quis me dizer algo sobre já não ser planeta, mas não tenho certeza se ouvi bem. Queria mesmo encontrar Caronte.
Paguei uma moeda ao barqueiro-navegante do cosmos e me tornei seu cosmonauta. Caronte me levou para as fronteiras do universo pelos mares cosmológicos do espaço-tempo, à uma lua distante num sistema planetário desconhecido, longe do olhar penetrante de Hélix. Escalei um monte alto, muito alto. Subi, subi, subi mais e mais e estabeleci-me em minha altivez, de onde, inevitavelmente, também me alcançava aquele olhar eterno.
Houve uma estrela. Nascera sem explosão, sem cisão, inesperadamente fora de uma nebulosa. Apenas nascera uma estrela. Não era minha, mas brilhava belamente, esplendorosamente, radiantemente... e o seu brilho se apagou...
E quando se mostrou a fugacidade daquele efêmero astro, entendi que Hélix amava os buracos-negros como eu amava as estrelas.
Para os lados de um aglomerado de pulsares, ao norte daquela lua, naquele sistema planetário desconhecido, surgiu um grande peixe que me engoliu vivo, alcançando-me no frágil monte de minha altivez. Fui levado à Andrômeda e lá busquei os buracos-negros de Hélix que removeu a escuridão mortal de seus núcleos e os converteu em estrelas brilhantes, brilhantes, ainda mais belas que as minhas, numa cosmogonia metafísica.
Deitado nos braços delegados da lua, eu observava tranquilo a dança graciosa de umas estrelas irmãs.


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Escrever é, antes de tudo, o abstracionismo dos pensamentos, das alegrias, dos lamentos e todos os sentimentos que transpassam a alma humana. É o transbordar filosófico e poético dos mares do pensamento.
Debruce os sentimentos de sua alma sobre este espaço, caro leitor.